20 de janeiro de 2018

O mistério da Síndrome da Resignação, doença que ocorre na região da Suécia

Quando seu pai a retira da cadeira de rodas, o corpo de Sophie, de nove anos, parece sem vida. Mas o cabelo de menina é espesso e brilha como o de uma criança saudável .

Os olhos de Sophie estão fechados e, em vez de calcinhas, ela usa fraldas por baixo da calça de moletom. Uma sonda gástrica adentra seu nariz. Ela se alimenta desse jeito há quase dois anos .

 

Sophie e sua família são originários de uma das antigas repúblicas da União Soviética e pediram asilo à Suécia em dezembro de 2015. Vivem em acomodação destinada a refugiados, em uma pequena cidade na região central do país nórdico.

“A pressão sanguínea dela é normal”, diz a médica Elisabeth Hultcrantz, voluntária da ONG Médicos do Mundo. “Mas seu pulso está um pouco acelerado hoje. Talvez ela esteja reagindo à visita de muitas pessoas hoje”.

Hultcrantz testa os reflexos de Sophie, tudo parece normal mas a criança não se mexe.

A médica se preocupa, pois Sophie sequer abre a boca. Isso pode ser perigoso, pois a menina pode se engasgar se houver qualquer problema com a sonda gástrica. Mas como uma criança que gostava tanto de dançar ficou tão inerte?

“Quando explica aos pais o que aconteceu, digo que o mundo foi tão terrível que Sophie trancou-se dentro de si própria, desconectando as partes conscientes de seu cérebro”, diz a médica.

Sophie não é um caso único: por quase vinte anos, a Suécia tem enfrentado uma misteriosa doença, batizada de Síndrome da Resignação. Ela afeta apenas crianças solicitantes de asilo ou refugiadas, e todas simplesmente “desligam”- param de andar, falar e abrir os olhos.

Elisabeth Hultcrantz diz que crianças simplesmente “desligam” partes do cérebro Mistério Mas por que esses casos ocorrem apenas na Suécia? Os profissionais de saúde tratando dessas crianças argumentam que o trauma é a causa deste afastamento das pessoas.

Os pais de Sophie sofreram extorsão de uma máfia local em seu país de origem. Em setembro de 2015, o carro em que a família viajava foi parado por homens em uniformes policiais.

 

“Fomos retirados do carro à força. Sophie viu sua mãe e seu pai serem espancados”, conta o pai da menina. Depois de libertar a mãe, que fugiu do local com a filha, os homens levaram o pai embora. “Não me lembro de mais nada (do que aconteceu depois)”, diz ele.

A Síndrome da Resignação foi reportada pela primeira vez na Suécia, nos anos 1990. Mas apenas no biênio 2003-05, mais de 400 casos foram registrados.

As chamadas “crianças apáticas” se tornaram uma questão política em meio a um debate crescente sobre as consequências da imigração na Suécia, país onde, segundo o Censo de 2010, quase 15% da população é imigrante.

Houve relatos de casos de crianças fingindo estar doentes e mesmo de pais drogando ou envenenando crianças para garantir direito de residência – nenhuma dessas histórias foi comprovada.

Na última década, o número de crianças afetadas pela síndrome diminuiu. O equivalente sueco ao Ministério da Saúde divulgou recentemente que houve 169 casos no biênio 2015-16.

A doença parece afetar crianças de perfis geográficos e étnicos mais vulneráveis: aquelas da antiga União Soviética, dos Balcãs, crianças ciganas e, mais recentemente, yazidis.

Ao contrário de Sophie, as crianças com a síndrome normalmente vivem na Suécia há anos quando ficam doentes, e já viviam vidas adaptadas ao estilo nórdico, falando até a língua local.

Inúmeras condições parecidas com a Síndrome da Resignação já foram observadas antes – entre sobreviventes de campos de concentração nazistas, por exemplo. “Pelo que sabemos, nenhum caso foi identificado fora da Suécia”, diz Karl Sallin.

Ao menos se sabe que as crianças podem se recuperar. No entanto, é difícil para os pais de Sophie acreditarem nessa possibilidade. Eles não viram qualquer melhora no estado da filha em 20 meses. Seus dias são vividos em função do tratamento da menina.

 

Até recentemente, as autoridades suecas permitiram que famílias imigrantes com uma criança doente permanecessem. Mas a chegada de mais de 300 mil pessoas nos últimos três anos mudou esse cenário.

No ano passado, uma lei temporária entrou em vigor para limitar o número de chances para solicitantes de asilo obterem residência permanente. Candidatos recebem vistos com duração 13 meses ou três anos. A família de Sophie tem o primeiro e o documento vence em Março.

Esse tipo de tratamento, ainda não muito conhecido no país, poderia ajudar Sophie? Vinte meses é um tempo muito longo para uma criança estar desconectada do mundo. O que pode ajudar, na opinião de seus pais? “Talvez a chegada do novo bebê – diz o pai.

A mãe da menina apenas repete o que ouviu do pediatra. “Para Sophie acordar, o médico diz que ela e a família precisam se sentir seguras”, defende. No entanto, o maior medo da família é ser deportada e eventualmente encontrada pelos homens que a fizeram fugir. Para a segurança da família, o nome real de Sophie foi alterado nessa reportagem.

Fonte : BBC Brasil/noticias.uol.com.br

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